sexta-feira, 17 de julho de 2009

Quanto mais velhos melhor

Alfonso Cuarón elevou exponencialmente o nível no Prisioneiro de Azkaban. Mike Newell foi mais além no Cálice de Fogo. Aí chega a vez do David Yates que não vai deixar saudades com a Ordem da Fênix. A Warner insiste e o chama novamente para dirigir o Enigma do Príncipe (chamaram o Guillermo del Toro mas ele recusou). O resultado é um filme que não só traz a franquia de volta para os eixos como também humilha o seu antecessor. Agora eu confio no David Yates para comandar as duas partes finais. Ainda não sei se este novo Harry Potter é o melhor de todos, é muito provável que seja. Mas tenho certeza de uma coisa, agora fico satisfeito em saber que o último livro foi dividido em dois filmes porque é mais fácil pensar, neste momento, que não precisarei encarar o próximo como o último. É difícil abandonar uma coisa que você vem acompanhando e eu comecei em 2001. E esta série fala justamente sobre crescimento, é sobre olhar como a sua própria vida se desenrola enquanto os personagens se desenvolvem. Não importa se você começa a ler com dez ou vinte anos de idade porque as mudanças acontecem para todos. Foi um sofrimento a leitura do sétimo livro e quando 2011 chegar, a história acaba no cinema, dez anos depois. Vamos ao filme.

O roteiro do Steve Kloves, que retorna ao trabalho após um filme ausente, é corrido mas flui perfeitamente bem. Se você acha que o quarto livro foi o mais mutilado, é porque não assistiu o novo filme. Não é uma reclamação mas as descobertas sobre o passado de Voldemort, o mistério sobre a identidade do Príncipe e as atividades ocultas do Malfoy ficaram em segundo plano em relação ao fervor dos hormônios destes alunos que agora chegam ao sexto ano em Hogwarts. Houve um desequilíbrio aí que, no entanto, não me incomodou porque o ponto forte do roteiro é a relação interpessoal do trio principal que nunca foi explorada de forma tão intensa e verdadeira como agora. Vale ressaltar também que este é o roteiro adaptado mais original da série e é legal ver que ele teve esta liberdade. Antes de ver o filme, li que muitos críticos estavam dizendo que era o mais engraçado de todos. Fiquei um pouco preocupado porque sempre tenho problemas com o que chamam de humor. Foi um alívio saber que eles estavam certos. Não é errado chamar o Harry Potter 6 de comédia romântica. As piadas estão muito divertidas e sem maldade.

O visual é de cair o queixo e ainda chamam o diretor de fotografia Bruno Delbonnel de Amélie Poulain que explora as cores nas diversas situações, sejam elas diurnas ou noturnas, quentes ou frias. A cena noturna no milharal, por exemplo, mostra o seu estilo cartunesnco adotado em Amélie. Parece uma iluminação artificial mas com muita beleza. Elogiar efeitos especiais já se tornou batido se bem que alguns deslizes já foram cometidos antes. A cena completa quando Dumbledore cria aquela cortina de fogo na caverna ficou emocionante.

Se há uma coisa de que esta franquia pode ser orgulhar é do seu elenco adulto. Há sempre uma grande expectativa para ver como o novo professor vai se sair e o Slughorn do Jim Broadbent (o pai da Bridget Jones) superou as minhas expectativas. Este filme marca a superação de outros atores. Tom Felton amadureceu muito bem. Michael Gambon deu uma nova dimensão ao Dumbledore. Helena Bonham Carter estava exagerada no anterior e agora finalmente acertou o tom. Alan Rickman alcançou a sua glória. E o Daniel Radcliffe? Limitado como sempre. Acho que ele estava melhor no anterior. Fui ver se tinha escrito sobre isso na Ordem e lá descobri que ele tinha sido o meu preferido do trio! Jamais vou repetir esta frase para o novo filme.

Já vi muitos fãs xiitas reclamando deste por não ter ação. Sim, é verdade. E fico feliz que a série tenha crescido o suficiente para sobreviver sem depender da quantidade de cenas de ação. Achei a memória que revela sobre horcruxes de arrepiar. Este filme não foca na brutalidade e sim na fragilidade destes personagens que vivem um presente incerto. Não acho que seja possível analisá-lo por ângulo distante do mundo da fantasia então é provavelmente apenas o melhor HP com uma qualidade indiscutível. Harry Potter 6 inicia uma trilogia que, tudo indica, ainda terá seu momento mais angustiante. Chegou a hora para esta equipe mostrar o último resultado de um trabalho que nunca decepcionou ao longo dos anos (HP5 está longe de ser ruim). Material é o que não vai faltar para ser trabalhado.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O maior espetáculo da temporada

Milagres acontecem. Star Trek entrou aqui e já saiu, só ficou uma semana. Lamento por quem não compareceu porque o filme é ESPETACULAR!! Deve ser a melhor opção do verão americano este ano. Eu queria tanto assisti-lo, sem falar que meu conhecimento neste mundo é zero e não estou mais na fase de me interessar por coisas nerds. Foi tão bem falado quando estreou lá fora que não pude deixar de sentir uma certa euforia por ele. E eufórico foi o estado em que fiquei depois de vê-lo. Star Trek é simplesmente sensacional em todos os sentidos. Vou dizer logo que ainda estou digerindo a trama e isto não é um defeito do filme. Peguei uma sessão barulhenta, já me perdi no prólogo por causa de duas criaturas que só falavam besteira e este fato criou uma pequena bola de neve de dúvidas que persiste até agora. Eu consegui acompanhar boa parte mas alguns pontos estão nebulosos em minha mente. Mas nada que comprometa minha visão geral.

Eu tive uma boa surpresa com os nomes que iam aparecendo nos créditos finais: Bryan Burk, Damon Lindelof e Michael Giacchino. Parecia um final de Lost e não escondo minha paixão pela série. Boa parte dos atores também teve mais trabalhos na TV do que no cinema. Star Trek é o maior triunfo na carreira de diretor do J.J. Abrams. Tá, é só o segundo filme dele tirando as séries televisivas. Eu gostei muito de Missão Impossível III também. A sua direção em Trek é extremamente precisa e o filme mostra que diversão pode ser de alta qualidade sem precisar de apelações. Graficamente, é uma beleza. Não possui excessos sonoros e a trilha sonora do Giacchino é de uma delicadeza comovente nos momentos mais dramáticos.

Aí vem o elenco que está afiadíssimo e ninguém decepciona. Os destaques, é claro, vão para Chris Pine e Zachary Quinto como Kirk e Spock. Acho que o ponto mais forte do filme é o conflito entre os dois que é explorado muito bem, os momentos de divergência e união se intercalam de forma que não existe um certo e errado, a gente não toma partido por nenhum dos dois porque ambas as motivações têm fundamento. O restante da tripulação da Enterprise transmite uma jovialidade contagiante. Eu gostei da diversidade de nacionalidades do elenco porque passa uma mensagem legal. E suas características ficam em evidência, por exemplo, nos sotaques fortes do russo Anton Yelchin e do britânico Simon Pegg. O John Cho é sul-coreano, a Zoe Saldana é negra, etc.

Eu fico pensando se o J.J. vai fazer o mesmo que o Christopher Nolan fez com Batman. Pegou uma franquia, iniciou do zero e deu certo. Se a lógica for seguida, o próximo Star Trek terá a mesma força do Cavaleiro das Trevas? Saberemos a resposta em 2011. E por que Star Trek não teve o mesmo sucesso de bilheteria no resto do mundo como nos EUA? Se não estou enganado, aqui no Brasil ele só ficou míseras quatro semanas no top 20 e Wolverine estava passando em um número três vezes maior de salas. Acho que a falta de astros no elenco também influenciou. Não estou reclamando até porque é só observar o fenômeno Transformers e ver que qualidade vai muito além de números. Mal posso esperar pelo DVD.

Nota: *****

domingo, 28 de junho de 2009

O que importa é ser feliz

Como esta semana não tem nada atraente nos cinemas aqui, vou falar de um filme que vi há quase duas semanas chamado De Repente, Califórnia. Eu adoro o cinema alternativo, entendo isto como aquele filme que nunca vai ser distribuído amplamente pois não há público para ele e sua exibição fica restrita a poucas sessões porque aborda temas que não combinam com o gosto da turma da pipoca. Prefiro enfrentar dez sessões deste Califórnia do que uma do novo Transformers. E também resolvi falar dele porque fiquei chocado com ódio das pessoas em relação ao Perez Hilton por causa do incidente violento com o Black Eyed Peas. A agressão que ele sofreu não tem nada a ver com o filme mas como eu acredito que sua opção sexual seja um dos motivos de tanto ódio, lembrei de Califórnia que fala de homossexualidade.

A história é sobre um jovem de uma família disfuncional que está em crise com a namorada e passa a se questionar quando conhece o irmão gay do seu melhor amigo. Além disto, é surfista, quer entrar numa escola de artes e passa boa parte do seu tempo cuidando do sobrinho pequeno. O filme é muito irregular pois seu roteiro trilha um caminho que se perde nos exageros. O seu final feliz não soa tão feliz quando comparado aos acontecimentos da última parada em São Paulo. O diretor e roteirista Jonah Markowitz parece não enxergar a realidade lá fora. Mas eu até entendo sua postura porque Califórnia é, acima de tudo, um filme para dar esperanças a uma minoria que vem lutando pelos seus direitos. Por este lado é totalmente válido, como obra cinematográfica nem tanto.

Esta é a primeira vez que o Jonah dirige um longa-metragem embora seu currículo é vasto por trabalhos no departamento artístico de vários filmes dentre eles Jogos Mortais, Rocky Balboa e Alpha Dog. Sua experiência nesta área é explorada em Califórnia com bastante talento desde a fotografia das cenas com mar e praia até a direção de arte das locações externas. Como não conheço muitos filmes do gênero, não posso comparar a história de Califórnia com outras. Mas fico com a impressão de que ela foge de certos padrões e assim mostra uma nova perspectiva de um assunto que é normalmente mal retratado. Por exemplo, o melhor amigo do protagonista é hétero e o comedor da região. Se a gente pensa no senso comum, ele deve ser homofóbico por tabela. Só que não, pelo contrário! Mas sabemos que é uma situação mais fácil de ocorrer só na ficção. É nobre mesmo assim a tentativa do autor.

Muitas vezes a narração é interrompida para mostrar cenas de surf com uma bela canção, é como se faltasse assunto. A verdade é que nem me incomodei com isto. Mas achei desnecessário que, num filme sobre homossexualidade masculina, as duas únicas mulheres da história sejam as antagonistas. Quer dizer, só uma delas porque a outra toma uma atitude lá depois da metade que gostei bastante. E no começo esta só serve mesmo como pedra no caminho do protagonista. De Repente, Califórnia ganhou vários prêmios em festivais especializados e seu maior valor está na intenção do diretor de fazer um filme que preza pela simplicidade e transmite uma sinceridade tocante.

Nota: ***

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Eles comem e elas dão

Eu acreditei que A Mulher Invisível tivesse conteúdo. Fui, inclusive, com certa empolgação prestigiá-lo. E não demorou muito para eu começar a sentir vergonha de mim mesmo. Onde eu tinha me metido? O filme não passa de uma sequência interminável de gags físicas do Selton Mello e uma exibição gratuita do corpo quase nu da Luana Piovani. Até a Fernanda Torres, que quando faz comédia num ótimo filme como Saneamento Básico está fabulosa, não se salva aqui. Para não ser completamente injusto, foi a Fernanda quem salvou uma das cenas finais no restaurante. Mas isto não quer dizer grande coisa porque ela passa o filme todo somente dizendo que a irmã deve dar para o vizinho. É assim mesmo com esta linguagem. As mulheres dão e os homens comem para se referir ao sexo. O público morria de rir quando os personagens falavam deste jeito. O Vladimir Brichta de quem gostei muito em Romance está extremamente detestável em Mulher Invisível fazendo um tipo ultra machista. Aliás, o filme todo é machista mesmo que a personagem da Luana tente convencer o contrário. O Selton pode comer todas sem ser condenado enquanto a sua vizinha solitária é crucificada por ter cometido um "adultério".

A história é a seguinte. O Selton é um homem apaixonado que fica louco após ser deixado pela companheira que o traía com um alemão (aqui o adultério não é condenado porque deve ser cômico). Toda esta cena inicial é bem previsível. A sua situação chega ao ponto de ele criar uma mulher ideal para curar a solidão. E o seu conceito de mulher ideal é: limpar a casa de quatro para ele de calcinha e sutiã e gostar de ter sido violentada pelo padrasto na infância. Um horror, não? Não é só o texto do Cláudio Torres (de Redentor que nunca vi e irmão da Fernanda) que possui estas barbaridades. A sua direção é do mesmo jeito. Numa cena em que o Selton e a Luana contracenam, ele está de frente para a câmera ao fundo no enquadramento e ela só de costas e próxima da câmera, o detalhe é que somente suas pernas são focalizadas porque sua função é servir de adereço naturalmente. Não é surpresa que a Luana não tenha nenhuma cena de nudez, seria inaceitável (=chocante) para os princípios do público alvo do filme.

O roteiro é muito fraco. São tantos marabalismos para separar o Selton da vizinha. Para que isto se sabemos que ficarão juntos no final? Imagino que seja para testar a nossa paciência. E quando achei que o filme iria acabar, ele estava chegando na metade. Foi um sofrimento terrível ter que suportar o restante. As pessoas ficaram quietas também por um tempo porque a Luana aparentemente finaliza sua participação e o Selton não iria fazer mais suas gags. Eu sempre achei que se podia tirar algum proveito até dos piores filmes. Depois de Mulher Invisível, eu mudei de opinião. Eu devia ter seguido a minha primeira intuição quando descobri que o Marcelo Adnet fazia parte do elenco. Ele tem aquele programa na MTV chamado 15 Minutos que nunca consegui ver mais de 5.

Nota: *

sábado, 13 de junho de 2009

Destruir a Casa Branca é coisa do passado

Eu não tinha nenhuma vontade de ver Anjos & Demônios porque acredito que uma história do Dan Brown já seja suficiente. Mesmo assim fui lá sem nenhuma expectativa e acabei gostando bastante. Não é nenhum grande filme mas também não vi problemas graves. É agradável, envolvente e um pouco filosófico sobre a questão fé x ciência. A história não toma partidos e basicamente diz que ambas as áreas podem viver juntas. Eu não sei se esta imparcialidade conta pontos para o filme, parece um maneira de agradar os dois lados por medo de uma repressão - e sofreu do mesmo jeito pelo Vaticano, já é até natural. Só que se A&D tendesse para um dos lados, a minha apreciação por ele iria depender do lado escolhido. Então sua imparcialidade, desta forma, parece uma saída justa.

Já gostei do seu começo por abordar dois assuntos da história recente: a escolha de um novo Papa e o LHC. Mais para frente iremos ver que o novo representante poderá ser um jovem padre. Aí me pergunto por que eles têm que ser velhinhos e retrógrados. Experiência de vida não é o mais importate. A trama se desenrola quando os quatro prefereti (os mais cotados para ser o novo Papa) são sequestrados e Robert Langdon de cabelo novo é chamado para decifrar o mistério com todos os seus conhecimentos porque uma certa mensagem foi deixada no local. A trama de O Código Da Vinci é imbatível no sentido de ser a mais instigante e provocante. Mesmo sendo bem inferior neste quesito, a adaptação de A&D é superior pois não me cansou em nenhum momento. Código foi extremamente longo, parecia que nunca iria acabar. A química entre o Tom Hanks e a Audrey Tautou era praticamente nula. Já a sua parceira neste é a atriz Ayelet Zurer. Quem? É, também nunca vi mais gorda. Ah, ela está em Munique do Spielberg de acordo com o IMDB! Isto não ajuda ainda, não lembro nada de Munique. O que importa é que ela teve muito mais afinidade com o Hanks em A&D e em nenhum momento foi sugerido um interesse romântico entre os dois. E ela foi a responsável pelo momento mais engraçado na minha opinião.

Que polícia despreparada era aquela? O sequestrador do filme eliminava com uma facilidade incrível. Umas aulas com os matadores da Camorra não fariam mal. A sequência que mais gostei foi uma em que milhares de fiéis esperam pela revelação do novo Papa na Praça de São Pedro e uma catástrofe começa a acontecer. Foi visualmente bonita e gostei não porque era o Vaticano que sumiria do mapa. Apesar dessa parte ser a mais eletrizante, a maior revelação só vem depois e nem foi surpreendente para mim porque eu já esperava. E olhe que eu sou péssimo para perceber detalhes.

Um pequeno problema do filme, quer dizer, não sei se é um problema mas quem consegue acompanhar o raciocínio do Robert Langdon? Um enigma é apresentado e logo ele vem com a resposta. O público não tem tempo para pensar. A maioria (including myself) não tem conhecimento suficiente de todas as igrejas italianas ou de toda a lenda dos Illuminati, por exemplo, então o filme sai perdendo quando bombardeia o público com questões que não iremos responder antes do Langdon, logo não temos como saber o próximo local da investigação. Mas como adaptar o livro sem ser desta forma? Acho que não tem como, a não ser que a fidelidade seja sacrificada.

O elenco coadjuvante deste é mais desconhecido com exceção do Ewan McGregor. Tem também o Armin Mueller-Stahl, o dono do restaurante de Senhores do Crime e o Stellan Skarsgård de Mamma Mia. Assim como o Ian McKellen roubava as cenas no Código, o Ewan ficou muito bem aqui. Mais uma vez foi dirigido pelo Ron Howard que teve uma década bem irregular com o seu ápice sendo Frost/Nixon? Convenhamos que Uma Mente Brilhante está caindo no esquecimento e ele é bem duvidoso.

Nota: ****

quinta-feira, 11 de junho de 2009

I'll be back

Eu acabei com o meu jejum de três meses de cinema ontem e isto me deu uma vontade de voltar a atualizar este bloguinho. Estou pensando em publicar textos mais variados sobre cinema para poder criar posts novos com mais frequência. Aí vou ver até quando a preguiça me vence novamente e desisto dele.

O jejum foi quebrado por Anjos & Demônios, a quarta vez que fui ao cinema este ano. Lá em janeiro eu assisti Romance com o Wager Moura e a Letícia Sabatella e gostei bastante. Um dos assuntos abordados é a censura sofrida pelos escritores de TV que devem sacrificar a sua criação artística em nome do interesse público. Só foi uma pena terem aliviado no final praticamente dizendo "Foi uma brincadeira, Rede Globo, a gente gosta das suas novelas". E neste mesmo dia assisti também o Falsa Loura do Carlos Reichenbach que divide opiniões. Eu detestei tanto este filme por causa dos 20 minutos finais. Valeu apenas por eu ter conhecido a promissora Rosane Muholland. Ela seria perfeita para O papel da Bruna em O Doce Veneno do Escorpião. Benjamin Button veio dias depois e não fui mais ao cinema até ontem.

A razão foi basicamente financeira e aproveitei para fazer uma experiência: não depender dos filmes que chegam aqui e abusar dos torrents. Foi uma ótima sensação de liberdade. Dei prioridade aos filmes das premiações de 2008, os principais chegaram aqui e outros ainda não como Rio Congelado, Valsa Com Bashir e Simplesmente Feliz. Mas as coisas vão melhorar a partir do segundo semestre, eu espero.

A minha volta ao cinema teria começado mais cedo se Star Trek fosse chegar aqui. Como o GSR não vai exibi-lo, não verei tão cedo. O verão americano é a pior época do ano, são tão poucas opções. Só vi Wolverine porque ele chegou nas minhas mãos, até que não é tão ruim tirando os primeiros quarenta minutos. Não verei os novos Uma Noite no Museu, Transformers e Exterminador do Futuro. Up só vai chegar em setembro (!!!!). Acho que o próximo vai ser Mulher Invisível...

sábado, 3 de janeiro de 2009

2008

205 foi o número exato de filmes que assisti em 2008. A nova comédia de erros dos irmãos Coen, Queime Depois de Ler, foi o último do ano. O mês de dezembro foi um desastre porque o show da Madonna tirou todo o meu interesse por cinema. Foram somente 5 filmes no último mês do ano. Aproveitei para publicar os textos que comecei a escrever mas nunca acabei por alguma razão.

Em 2007, eu reclamei que não tinha opções para fazer um top 10 de preferidos do ano. Agora sobraram opções. Vamos à lista dos meus preferidos de 2008:

10 - Sweeney Todd: O musical do Tim Burton abre a lista por ser tecnicamente impecável. É um espetáculo visual.

9 - Linha de Passe: Um critério que uso para opinar sobre um filme é o quanto ele sobrevive ao tempo. Este filme do Walter Salles vence Os Desafinados nesta questão. Eu ainda mantenho a opinião positiva sobre o musical brasileiro mas a busca da família de Linha de Passe por uma identidade só aumentou no meu conceito.

8 - Wall-E: A primeira e não única animação da minha lista também aparece nas listas dos outros meios. A surpresa da história do robô que se apaixona foi instantânea e marcante.

7 - Desejo e Reparação: O romance durante a 2ª Guerra Mundial está aqui não somente pelas mesmas razões de Sweeney Todd. Mas também por provocar uma análise da menina que é tudo menos cupido.

6 - Estômago: O meu filme brasileiro preferido de 2008. Gastronomia e humor podem andar juntos.

5 - Persépolis: Não tenho medo nenhum em dizer que Persépolis me agradou muito mais do que Wall-E.

4 - Piaf - Um Hino ao Amor: Até eu fico surpreso com a posição de Piaf. Nunca escrevi sobre ele porque só pude ver em DVD e foi paixão à primeira assistida. Atuação comovente de Marion Cottilard e um roteiro não linear bem inteligente. E as músicas de Edith Piaf!

3 - Batman - O Cavaleiro das Trevas: O melhor filme de super-herói já feito. Ponto.

2 - Sangue Negro: Eu poderia empatar as duas primeiras posições mas elas foram desempatadas há pouco tempo. A ganância sobre a exploração do petróleo fica atrás do que vem a seguir.

1 - Onde Os Fracos Não Têm Vez: Eu entendi o filme todo errado, comprei o DVD e decidi que seu lugar é este mesmo. Hoje eu revi Fargo e curiosamente a detetive dele me fez compreender mais o xerife de Fracos. Finais idênticos. Por que funcionaria naquele ano e não neste?

Texto inacabado: Vicky Cristina Barcelona

O Woody Allen completou 73 anos e no dia do seu aniversário, assisti Vicky Cristina Barcelona. Eu escrevi no texto sobre O Sonho de Cassandra que até hoje nunca vi muita coisa do diretor. Não o publiquei porque nunca acabei. Mas basicamente já vi o Woody dirigindo suas musas Diane Keaton, Mia Farrow e agora a Scarlett Johansson. O que importa é que VCB superou muito minhas expectativas. É a comédia sobre relacionamentos que o Woody sabe fazer como ninguém. Duas amigas americanas (Rebecca Hall - Vicky e Scarlett Johansson - Cristina) que divergem sobre o amor viajam para Barcelona onde serão tentadas pelo pintor garanhão Javier Bardem, um recém-divorciado de um casamento problemático com Maria Elena (Penélope Cruz, sensacional!). Eu tinha lido antes umas reclamações sobre a narração excessiva emVCB. Como sua intenção não é mastigar a história para o público então nem me incomodou tanto. Embora realmente canse como um recurso narrativo.

Eu dividiria o filme em duas partes: antes e depois de Maria Elena, sendo a segunda superior. O maior problema da primeira é se tornar cansativa depois de um certo momento. A história parece que pára de evoluir. Vicky e Cristina não funcionam em cena sozinhas, elas precisam de um suporte que é dado pelo Javier Bardem. A cena inicial delas com ele é incrível. O Javier se aproxima e praticamente diz (mudei as palavras mas a idéia é a mesma): "Querem passar o fim de semana comigo no lugar X para transarmos?". Só o Woody Allen para não deixar a situação absurda, sem falar que o Javier está tão natural que não tem como não deixar a coisa toda crível. Quando ele parece criar uma relação estável com uma delas, eu comecei a cochilar. Não era hora de nenhum equilíbrio então surge - felizmente! - Penélope Cruz para desistabilizar o casal.

Penélope encarna a ex-esposa que acabara de tentar o suicídio. Achei de uma sensibilidade incrível como ele a acolhe em sua casa uma vez que está comprometido com uma das amigas americanas. Ele tinha tudo para ser o "pegador" insuportável mas em nenhum momento ele chega perto deste tipo. Mas o que chama a atenção nesta segunda parte é como a Penélope dá a Maria Elena um senso de desequilíbrio sem faltar sensatez. A cena final dela é de rir histericamente, é algo que me lembrou Mulheres à Beira de um Ataquede Nervos.

As divergências sobre o amor de Vicky e Cristina são colocadas em prática quando Vicky (a quase casada) se culpa pelo romance de uma única noite e Cristina (solteira) se envolve numa relação a três.

Texto inacabado: Control

Fui ver Control, a cinebiografia do Ian Curtis do Joy Division, só mesmo por curiosidade já que não conhecia muito dele e da banda. Acho que no meu caso era mais difícil de entrar no seu mundo por isso acabei não gostando. Não encontrei nenhum grande ponto em que pudesse me identificar com o Ian. E como o filme só enfoca a vida pessoal do rapaz (é baseado na biografia escrita pela sua esposa), não pude conhecer a trajetória da banda e sua importância para a cena musical daquela época. É até aceitável que o objetivo não tenha sido mesmo criar novos fãs do Joy Division então cabe a nós apenas assistir para julgarmos se as atitudes do Ian eram compreensíveis ou não.

O seu casamento prematuro, a epilepsia e até a própria banda foram os síntomas para o suicído aos 23 anos de idade. Fiquei com a impressão de que certos problemas podiam ser amenizados como a vida conjugal. É difícil de entender como ele continuou o casamento após reconhecer que foi muito cedo. Fiquei muito incomodado por ele mentir para a esposa ao dizer que acabaria com a Annik, a amante belga, quando ele sabia que não seria capaz de fazer isto. Mas fiquei sensibilizado em outra cena quando ele pergunta se não pode amar duas pessoas. A coitada da esposa Deborah parecia sentir um amor incondicional e talvez o Ian percebesse e mentia achando que a estivesse protegendo.

(...falar dos ataques epilépticos...)

Apesar de tudo, algo que gostei muito foi a qualidade técnica. A bela fotografia preto e branco cria um clima de documentário, as imagens parecem restauradas de registros antigos. A dupla Sam Riley e Samantha Morton está afiadíssima, o Sam mais ainda quando está encarnando o Ian no palco. Totalmente inspirado.

Texto inacabado: O Sonho de Cassandra

Mesmo com o meu conhecimento quase nulo sobre Woody Allen, o Sonho de Cassandra deve ser um dos seus mais fracos e ainda assim está longe de ser um filme ruim. Não é como o Kika do Almodóvar que vi recentemente. Este não é somente um dos seus mais fracos como também achei péssimo. O trailer de Cassandra é bastante informativo e confuso. Duas semanas depois quando pude assistir o filme, achei que Cassandra fosse o interesse romântico dos dois irmãos da história. Eles iriam disputar o amor da moça. Mas não é nada disso e a história real é muito melhor do que minhas suposições. Ewan McGregor e Colin Farrell são dois irmãos em busca da estabilidade financeira. Ewan ajuda o pai no restaurante e sonha em abrir uma rede de hotéis. Colin trabalha numa oficina de carros e passa o tempo livre nos jogos de azar. A situação piora quando o Colin perde uma bela quantia nas cartas e Ewan decide sair do restaurante para investir nos hotéis. Só uma pessoa pode ajudá-los: o tio rico podre de rico (Tom Wilkinson). Até este momento o filme tem um ritmo excelente e também gostei muito da química entre o Colin e o Ewan. A relação deles é totalmente amigável mas um clima de suspense de que algo pode mudar persiste durante todo o tempo. Quando eles pedem dinheiro ao tio, o filme muda de estilo e melhora ao alcançar um novo patamar. É que a dupla vai ter que realizar uma tarefa antes para receber a recompensa. Eu cansei perto do final porque o ritmo do começo não existe mais. No entanto, o clímax ainda estaria por vir e iria valer a pena.

Texto inacabado: Desejo e Reparação

Desejo e Reparação chegou aqui neste fim de semana quando eu não tinha mais esperança vê-lo no cinema. É claro que fui conferir com bastante empolgação e não me decepcionei nenhum pouco. A primeira surpresa foi como o diretor Joe Wright não recebeu a indicação ao Oscar? Não lembro agora como Orgulho e Preconceito foi nas premiações há poucos anos mas um dos grandes triunfos de Reparação é o trabalho de direção do Joe. Só levou por Trilha Sonora que foi bem merecido. O trio Keira Knightley, James McAvoy e Saoirse Ronan está ótimo mas só a garota Saoirse foi indicada. E famosa cena sem cortes do campo de concentração? Uma direção de arte espetacular. Reparação é tecnicamente impecável. Eu não era muito fã destes romances de época da Jane Austen quando assisti Orgulho e Preconceito. De lá pra cá, já vi Feira das Vaidades (fraquinho) com a Reese Witherspoon, Razão e Sensibilidade (maravilhoso) do Ang Lee e O Despertar de uma Paixão (2006). É um gênero que aprecio mais hoje em dia.

Reparação narra uma história de amor (James/Keira) interrompida pela mentira de uma criança (Saoirse) e como esta atitude vai influenciar sua própria vida. Eu senti que o roteiro parece manipular o espectador. Você vai julgando a Briony (Saoirse) durante as suas três fases mostradas no filme. Aos treze anos, você a odeia por causa da mentira. Aos dezoito, você quer que ela sofra de remorso em virtude da enorme descoberta sobre sua amiga de infância. E na sua velhice, é hora de condenar de vez. Você não tem escolha a não ser julgá-la desta maneira. Isto nem é reclamação porque não me incomodou a ponto de comprometer o resultado final.

DeR utiliza uma linguagem antiquada mas sem ficar muito distante do contemporâneo. (continua...)

Aquele do título complicado

Eu nem sei o que escrever sobre o novo filme do James Bond, o 22º da série. Só sei que gostei muito mais que o anterior Cassino Royale. Quantum of Solace, aquele-cujo-título-não-é-traduzível, começa onde Cassino terminou. Se eu não tivesse revisto recentemente cenas aleatórias dele incluindo a final, nem lembraria como terminou. Gostei mais do Solace por ser muito mais enxuto, é um filme que vai direto ao ponto e não fica enrolando para acabar. Só para ter uma idéia, Cassino era uns 40 minutos mais longo. Quando eu pensava que iria acabar, Bond ainda tinha mais uma tarefa para executar. Quantum é justamente o contrário. É uma beleza de agilidade, a ação é mais impressionante e tem uma trama mais leve. Quem vai ver James Bond, acredito eu, procura puro divertimento ao invés de um filme cabeça, não é? Acho que a única coisa que gostei mais em Cassino foi a Bond girl. Eva Green tinha mais presença de cena do que a nova girl Olga Kurylenko. Como tudo indica que o Daniel Craig vai fazer uma trilogia a princípio, a Olga pode voltar para o terceiro já que continuou viva. Uma Bond girl pode participar de mais de um filme? Eu não sei, só assisti dois 007 em toda a minha vida.

Quantum começa com uma perseguição de carro incrível. Inclusive o veículo que o Bond usa parece mais indestrutível que o batmóvel. Depois parte para uma luta física de tirar o fôlego. Não tem uma sequência de ação que decepcione. A minha preferida foi a do avião pois chegou a ser sufocante. Bond está atrás dos chefões daqueles que mataram a Vesper em Cassino. E como está sedento de vigança, ele sai matando qualquer um que aparece na sua frente o que faz M interferir na licença do agente gerando cenas bastante divertidas graças a Judi Dench.

Foi muita coincidência eu ter assistido Chinatown do Polanski um dia antes pois ambam falam da “indústria da água”. O vilão de Quantum (Mathieu Amalric de O Escafandro e a Borboleta) é o chefe de uma organização que derruba líderes políticos. É mais ou menos assim: ele ajuda os militares da Bolívia num golpe para derrubar o presidente e recebe um pedaço de terra do país para estocar água. E a tal organização é conhecida mundialmente por comprar terras para a preservação ambiental, ou seja, só de fachada. Os interesses americanos estão também envolvidos na jogada mas não lembro mais os detalhes já que assisti o filme há mais de três semanas. Convenhamos que um filme de James Bond não fica na memória por muito tempo.

É difícil eu aproveitar algo só pela ação e Quantum of Solace proporcionou justamente isto. Não houve nenhuma situação que tenha me irritado então foi um ótimo divertimento.

Nota: ****

domingo, 23 de novembro de 2008

Os jogos nossos de cada ano

Achei que iria perder de ver Jogos Mortais 5 no cinema mas consegui graças a um feriado. E agora é oficial: cansei da série. Eu sempre tive uma atração por ela que durou principalmente até o terceiro filme. Lembro que gostei do quarto só que agora um ano depois, não tenho nenhuma lembrança dele. Ao assistir o quinto, eu reconhecia os rostos mas sem lembrar o que fizeram antes porque o único personagem dos três primeiros filmes que ainda sobrevive é o Jigsaw (eu acho) através de flashbacks. Está claro agora que estão sofrendo para criar novas idéias. A maior revelação deste é que a Amanda não era a única aprendiz do Jigsaw. Partindo desta premissa, a série pode durar eternamente. Ainda é curioso como são cuidadosos ao referenciar os filmes anteriores numa tentativa de nunca perder a ligação entre eles. Até o personagem do Danny Glover no primeiro é mencionado. Este é o único ponto que ainda vejo de positivo. E o final deste não tem aquele impacto surpresa dos outros, estão sofrendo da falta de criatividade. Este quinto também me desagradou por ter o grupo de personagens novos mais irritantes desde o segundo. Eu já queria ir embora após os trinta minutos iniciais. Tem uma cena em que a viúva do Jigsaw chora ao assistir um vídeo que o marido deixou. Fico imaginando o que o diretor fala para a atriz se emocionar nesta situação e num filme do porte de Jogos Mortais. Enfim, o filme vai ter continuação. Ele custa 10 milhões de dólares e este valor já retorna para o estúdio só com as exibições no primeiro dia. O que vem a partir do sábado é lucro. Se eu ainda tiver paciência, verei a sexta parte e provavelmente o que escrevi neste post servirá também para o próximo ano.

Nota: **

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Vilão ou vítima?

Eu tenho quase certeza que assisti ao vivo o incidente do ônibus 174 naquele ano de... O que lembro é da minha indignação provocada pela situação, tanto por causa do Sandro e principalmente pelo tiro errado que matou a pobre moça. Muita gente não sabia, inclusive eu que descobri quase agora, que a Geisa não morreu pelo tiro do policial pois este pegou de raspão. Mas o tal tiro não deixa de ser o responsável pela morte dela mesmo que indiretamente. É até normal sentir raiva do Sandro e considerá-lo o vilão da história porque é difícil aceitar uma justificativa para o que ele fez. Aí vem o Bruno Barreto e filma a vida dele colocando-o como vítima do sistema. Só fiquei com mais raiva ainda. Ser sobrevivente da chacina da Candelária e apanhar da polícia, só para citar dois exemplos, não é desculpa para viver no mundo do crime. Concordo que se revolte contra a injustiça sofrida mas ele tinha a escolha de não seguir esta vida. Então não aprecio um filme que faz o Sandro de coitadinho. Não estou dizendo que Última Parada 174 seja uma carta de amor para o Sandro mas fazer com que as pessoas conheçam a sua história me parece uma forma de deixar os seus atos mais compreensíveis. Não duvido nada que Lindemberg seja o próximo.

A decisão de fazer este filme veio após o documentário Ônibus 174 do José Padilha em que Barreto se interessou pelo fato de a única pessoa no enterro do Sandro ter sido sua mãe adotiva. Última Parada deve ser melhor classificado como uma ficção baseada em fatos reais. O seu maior problema é ser preguiçoso e querer pegar carona no sucesso de Cidade de Deus. E olhe que o filme do Meirelles já tem mais de cinco anos. Também não é novidade que ambos tenham sido escritos pelo Bráulio Mantovani. Os diálogos são tão exageradamente recheados de palavrões que é como se fosse uma linguagem mecânica de uma fórmula. Isto me irritou profundamente. Última Parada oscila bastante, são estes momentos que odiei e outros até bem convincentes graças aos dois atores principais iniciantes que entregam atuações de primeira. Gostei bastante da personagem Soninha, a prostituta e parceira do Sandro. Ao lado dela, o rapaz é um poço de imaturidade.

Não gostei de certas gracinhas introduzidas nas cenas do sequestro do ônibus. Quando ouvi o público rindo naquele momento supostamente dramático, fiquei com a impressão de que faltou um pouco de respeito com o incidente. Não vou mentir que fiquei arrepiado quando o Sandro e a Geisa descem do ônibus e o policial dispara a arma. Mas o efeito logo passou e só lamento por esta ser a indicação brasileira para o Oscar. Última Parada é um filme pipoca que não detestei por completo pois ele flui bem até o final, é totalmente assistível. Fiquei convencido de que este estilo precisa evoluir. Não é surpresa que meus filmes brasileiros preferidos deste ano sejam Estômago, Os Desafinados e Linha de Passe.

Nota: ***

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Nem tão cegos assim

Texto com vários detalhes da história.

Como eu queria acreditar que as críticas negativas a Ensaio Sobre A Cegueira eram injustas. Queria até ser um pouco ufanista agora mas não tem como. Cegueira é decepcionante. Eu corri para ler o livro antes do filme e tenho que concordar quando dizem que adaptá-lo é uma tarefa quase impossível. Eu quis acreditar que o Meirelles tinha feito um trabalho excepcional principalmente por causa do famoso vídeo com o Saramago chorando. O filme peca pela ausência da profundidade que o livro alcança. A percepção de uma pessoa que não leu o romance vai ser diferente da minha naturalmente. Acho que quem estiver afim de um pretexto para comer pipoca, vai aproveitar o filme. A sessão aqui lotou em plena segunda-feira e ouvi gente dizendo que o filme é muito forte. Isso vai depender do puritanismo de cada um, não é? Devem ter ficado chocados com as cenas de nudez e estupros. Aliás, o Meirelles aliviou demais neste quesito porque não tem a mesma repugnância do livro. Tal momento foi o mais chocante da minha leitura. Ele decidiu pegar leve porque nas primeiras exibições de teste para o público especializado, as pessoas iam embora durante estas cenas. Eu acredito que o problema não estava nestas cenas exatamente mas em todas as coisas que ocorreram até aquele momento do filme, o que deixou os estupros com cara de decisão aleatória. Vamos colocar só para criar polêmica, por exemplo. Sabe quando você sente que vai ter problemas após assistir somente os dois primeiros minutos? Cegueira me deu está impressão. A partir daí, eu já comecei a lamentar. Não gostei de como o primeiro cego ficou cego. Foi tudo com muita frieza. Por que não mostrar o rapaz por breves segundos antes de tirar a visão dele? Eu não senti o impacto à medida que os personagens principais iam cegando. Achei esta parte inicial bem apressada.

Pode-se dizer que o roteiro é muito fiel ao livro com certas passagens sendo puladas. Aceitar a fidelidade ao material original vai de cada um mas o roteiro do Don McKellar (também atuando como o ladrão do carro) poderia ser mais ousado. Sobrou para o Fernando Meirelles encontrar os meios de filmar uma história em que todos estão cegos. Acima de tudo, o diretor merece o reconhecimento pela tentativa. Sim, ele falhou em vários pontos. Em alguns diálogos, os atores não pareciam cegos. O Mark Rufallo (médico) é o campeão nesta questão. Já a quantidade de telas brancas está bem dosada. Um cineasta inexperiente poderia rechear o filme com vários minutos de imagens brancas para representar a visão dos personagens. Eu confesso que tinha este medo. Felizmente, o uso delas não acabou atrapalhando. Outro ponto problemático foi não saber impôr ao público o real significado de uma cena. Por exemplo, a maioria das pessoas riu quando o garotinho estrábico se esbarra numa mesinha. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Eu não ri apesar de ter ficado em dúvida se realmente ela foi colocada de forma cômica. Mas houveram outras que definitivamente eram sérias e provocaram risos. Eu até me perguntei como estas pessoas eram capazes de rir da desgraça alheia. No entanto, quando a situação é recorrente nem tem como culpar tanto o público. O momento em que o médico pede para que todos a favor na votação levantem a mão é realmente engraçada, é também assim no livro.

A mulher do médico (Julianne Moore) deveria ser o personagem mais marcante devido a sua importância mas quem causou mais impacto mesmo foi o Gael García Bernal. Apesar da sua participação pequena, ele consegue se destacar ao ponto de apagar os outros atores em cena. Acho que nem é questão de talento, os outros personagens é que estão apagados. A rapariga dos óculos escuros (Alice Braga), o velho da venda preta (Danny Glover) não chegam a mostrar a que vieram. É muita maldade dizer que até o cão das lágrimas não mostrou a que veio? O mesmo vale para o primeiro cego e sua esposa que são japoneses no filme. Não fazia sentido para mim quando era mostrado o casal discutindo o relacionamento, não parecia acrescentar nada. O que não fazia sentido também era o carinho da rapariga dos óculos escuros com o garotinho estrábico, o heroísmo da mulher do médico. De onde vinha tanta motivação?

Eu tive mais prazer depois que eles saíram do alojamento. A quarentena já estava cansando. Um dos meus momentos preferidos no livro é quando as mulheres tomam banho de chuva na varanda do apartamento do médico. Provavelmente, esta deve ser a única situação que deve ter ficado melhor no filme porque ela foi mudada de lugar e ficou muito mais bonita na rua com todos os cegos. Também gostei da recuperação da visão, eu quase tive a mesma sensação que tive no livro. Eu não tinha nenhuma esperança que eles fossem voltar a enxergar então quando acontece, senti como se fosse comigo. É um momento comovente no filme. Será que algum novato com a história vai se questionar sobre o que aquela cegueira representa? De onde veio? Por que uma pessoa não cegou? Assistindo só o filme, a resposta é não. Ele não estimula a reflexão.

Antes mesmo do início das filmagens, já cogitava-se uma possível indicação da Julianne Moore ao Oscar. A confiança dada a este projeto ambicioso permitia estas apostas. Mas duvido muito que ela seja indicada. É muito difícil também que o Meirelles receba por direção. Fotografia... talvez. É mais fácil direção de arte. As imagens de São Paulo refletindo a degradação humana chegam a impressionar. É interessante que o filme tenha sofrido protestos por parte de grupos de deficientes visuais. O Saramago realmente exagerou no nível de degradação. A humanidade, com certeza, iria continuar vivendo como se nada tivesse acontecido. O desespero dos cegos no livro é muito ilusório, é claro. Para a felicidade deles, o filme teve um desempenho pavoroso nos Estados Unidos. Pode-se afirmar categoricamente que ninguém foi ver Cegueira por lá. De acordo com o Box Office Mojo, o filme só ficou em cartaz duas semanas!! É muito triste que uma das produções mais grotescas do ano como Disaster Movie tenha sido mais vista do que Cegueira.

Neste exato momento, eu lembro que cheguei a acompanhar os primeiros posts do blog de Blindness. É uma pena que a riqueza dos textos do Meirelles não tenha tido efeito no trabalho final. É por isso que foi decepcionante. O seu idealismo nas fases de produção só foi enxergado por ele. E pelo Saramago. Independente do resultado, foi gratificante ver desde o primeiro cego perdendo a visão em seu carro até a mulher do médico olhando para o céu branco e achando que chegou a sua vez. Tenho certeza que irei gostar mais quando assistir uma segunda vez.

Nota: ***

domingo, 19 de outubro de 2008

Família que dribla

Eu não estou conseguindo agora colocar Linha de Passe numa ordem de preferência dos filmes do Walter Salles porque precisaria rever Abril Despedaçado e Diários de Motocicleta. Uma coisa é certa, Central do Brasil continua sendo meu preferido. Linha de Passe é um filme de ritmo lento pois o momento da cena é mais importante do que a narrativa da história. Isto pode explicar os sussuros de insatisfação das pessoas no fim da sessão por causa do seu final "sem final" como em Onde Os Fracos Não Têm Vez. É verdade que em Linha é como se o clímax fosse interrompido, a gente espera por algo que sabemos que vai acontecer mas os créditos finais sobem. Eu não tenho esta necessidade visual então achei o mais recente trabalho do Walter e sua amiga de longa data Daniela Thomas uma verdadeira jóia. É a trajetória de cinco personagens, uma mãe e seus quatro filhos, em busca de uma identidade. Uma curiosidade é que o Vinícius de Oliveira é o único dos cinco que já atuou em cinema antes. Sandra Corveloni, a mãe, foi a melhor atriz em Cannes. Acho que o júri a elegeu em virtude do seu personagem pois a sua atuação me pareceu um pouco limitada.

Para tratar de cinco pessoas com suas histórias distintas, é necessário um roteiro perfeitamente escrito que equilibre bem os dilemas de todos os personagens. Neste quesito, Linha é impecável. Bráulio Mantovani colaborou com o roteiro em sua finalização. O título Linha de Passe é referência a uma jogada do futebol e é pedir demais para que eu saiba do que se trata. Só sei que futebol é a paixão da Cleuza (Sandra) e do Dario (Vinícius). Inclusive, o esporte é a única carreira que ele se acha capaz de seguir. Dênis é um motoboy com tendências marginais, Dinho encontrou Jesus e Reginaldo, o caçula, está à procura do seu pai. A família agora está completa. Engano meu. Faltou o quinto filho que ainda está na barriga de Cleuza. Eu me identifiquei com todos eles, pude compreender suas vidas sofridas devido à falta de dinheiro e de uma identidade, como disse antes. É bacana como o filme não faz parecer que a falta de um pai abala a estrutura familiar. Mesmo quando a Cleuza pergunta se nenhum homem da casa é capaz de desentupir a pia da cozinha, ela não está reclamando da ausência de um marido. Quando o Dênis decide praticar furtos, não é por ser apenas uma forma de arrumar dinheiro fácil. É uma atitude ingênua de um ser humano à beira do desespero. A sua consciência da realidade ainda está presente. E se o roubo não dá certo, a sua complexidade vem à tona. Foi uma das minhas cenas preferidas quando ele meio que sequestra um carro e pede para o motorista levá-lo para longe. Neste momento, o Dênis não quer dinheiro. Já o Dinho foi buscar Jesus para atenuar sua realidade. Eu sempre questionei a sua fé, não por achar que fosse falsa mas por ele, inconscientemente, não saber o que ela representa. Um dos seus grandes momentos é quando comente um ato de violência sem necessidade. E quem disse que é possível condená-lo? O pequeno Reginaldo é uma espécie de pestinha. Algumas malcriações podem ter sido gratuitas mas não foi nada que atrapalhasse a nossa compreensão da obsessão do garoto em encontrar o pai. A história do Dario me causou menos impacto talvez por ele ser bem introvertido. Mas é comovente sua insistência em se tornar jogador após tantos fracassos. E mais uma vez como é possível condená-lo por falsificar sua data de nascimento?

Linha de Passe é um daqueles casos onde os atores do elenco se completam. Tem como destacar só um de Pequena Miss Sunshine? É claro que não. Em 2006, o prêmio de melhor atriz em Cannes foi para todo o elenco de Volver já que seria injusto premiar só uma. Pois em Linha também acho injusto só destacar a Sandra. O que importa mesmo é que Walter e Daniela entregaram mais uma vez um excelente trabalho de direção e fico com uma sensação de tarefa cumprida pois queria muito assistir Linha de Passe.

Nota: *****

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sem medo do ridículo

A Meryl Streep disse numa entrevista que só aceitou fazer Mamma Mia! para deixar a filha (ou filhas, não lembro) envergonhada. Bem, não é só a filha que deve ter ficado. Não existe aquela expressão da síndrome da vergonha alheia quando você se envergonha por outra pessoa? Foi exatamente assim que eu me senti. O caso se complica para a Meryl quando Mamma Mia! já é o musical mais rentável da história. O lado bom é que o número de espectadores nem se compara ao de uma Noviça Rebelde, por exemplo. Mas posso entender o seu sucesso estrondoso. É divertido, o elenco não tem medo ser ridículo, as músicas do ABBA são contagiantes e dá vontade de assistir de novo. Sucesso garantido. Gostei mais do que Across The Universe porque é praticamente estável do começo ao fim. O filme baseado nas músicas dos Beatles despenca depois da metade. Mamma é tão irresistível que não tem como não se deixar levar. Ficou evidente que o elenco se divertiu o máximo durante os ensaios e as filmagens. Mamma é um musical pastelão e funciona por ser exatamente assim. É gostoso ver aquelas três atrizes que já passaram dos seus 50 anos esbanjando vitalidade.

Se você já ouviu falar do musical então deve saber que é a história de uma garota (Amanda Seyfried de Meninas Malvadas) que vai se casar e convida para o casamento os seus três possíveis pais (Colin Firth, Pierce Brosnan e Stellan Skarsgård) já que nem ela e nem a mãe (Meryl Streep) sabem quem é o felizardo. As principais músicas do ABBA estão presentes. Acho que não conhecia somente três delas. O número que mais gostei é o de Dancing Queen quando as duas amigas da Meryl (Julie Walters e Christine Baranski) começam cantando e vão arrastando todas as mulheres da região. Outros bem legais são o de Mamma Mia e Voulez-Vous. Lay All Your Love On Me juntamente com Mamma Mia são os dois que mais me deixaram com vergonha. O que são aqueles homens dançando com os pés de pato? Eu juro que me encolhi na poltrona para não correr o risco de alguém conhecido me ver. As belas paisagens gregas estão lá mas senti que poderiam ser melhor aproveitadas. A igrejinha no topo do morro com sua escadaria é linda. Imagino que os convidados deviam considerar bastante os noivos para subirem aquelas dezenas de degraus. A Meryl sobe correndo logo após o seu monólogo em The Winner Takes It All. Ela até que canta bem mas os meus ouvidos sofreram neste número específico. É sério, ela grita mesmo. A Julie Walters está ótima. Ela reclamou na época do Billy Elliot sobre um número de dança deste filme que exigia demais dela. Mal sabia o que iria fazer quase 10 anos depois. É curioso como alguns números são criados só como pretexto para usar uma certa música e eles nem fariam falta para a trama principal. Does Your Mother Know é um deles. Eu nem acho isto ruim, desde que não atrapalhe a evolução da história. E não lembro de nenhum número de Mamma que tenha atrapalhado. A cena na igreja possui as frases que mais gostei do filme. Uma é quando a Amanda fala para a Meryl que não se importa se a mãe já dormiu com mais de cem homens. Outra é uma que o Colin Firth diz mas não vou citar por ser um spoiler. Mamma pode parecer uma celebração do sagrado matrimônio mas felizmente não o encarei desta forma.

Eu tive uma surpresa boa no final em relação à solução do mistério da paternidade por não ser a resolução que eu esperava. E quem vai ficar com Meryl? É óbvio desde o começo. Mamma peca nos aspectos técnicos. A edição gera erros de continuidade nos números, a iluminação nas cenas de estúdio não é uma das melhores, a fotografia deixa os atores com umas cores estranhas em alguns momentos, etc. Mas isto tudo se perde quando você entra no clima do filme. Só eu percebo o Mamma se tornando um clássico com o passar dos anos? Xanadu que é o campeão dos bregas se tornou. Mamma Mia! merece minha generosidade.

Nota: *****

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Desafinando de verdade

Eu nunca tinha ouvido falar de Os Desafinados até poucos dias antes de sua estréia aqui. E ouvi falar tão bem que não pude deixar de criar uma certa expectativa. É simples assim: o segundo melhor filme nacional que vi este ano depois de Estômago. Enquanto este último parte para o lado gastronômico, Os Desafinados é mais ou menos um musical de bossa nova que conta a trajetória de um quarteto (Rodrigo Santoro, Ângelo Paes Leme, André Moraes e Jair Oliveira, o eternamente Jairzinho) carioca em busca do sucesso nos anos 60. Eles tentarão a carreira se mudando para a Big Apple onde conhecerão uma vocalista (Cláudia Abreu) para o grupo. E ainda tem o Selton Mello, um cineasta amigo do pessoal que está tentando acabar o seu filme. Isto tudo é contado através de flashbacks porque o tempo atual acontece na velhice dos personagens. Eu achei lindo os breves momentos em que os atores jovens e velhos foram colocados na mesma cena para fazer a transição entre o passado e o presente. Foi um detalhe mínímo que aconteceu umas duas ou três vezes mas achei bem marcante.

A primeira coisa que vale citar é como o filme não parte para uma história de ascensão e decadência mesmo que você fique com esta impressão no começo. Os Desafinados, aliás, muda de rumo tão fortemente que não parece mais o mesmo filme. Fiquei um pouco incomodado, devo dizer. Mas no caminho para casa fiquei pensando como esta foi a melhor saída. Ou eles faziam algo mais Mamma Mia! (ainda não vi) ou algo mais Across The Universe. Escolheram a segunda opção. Repito. Os Desafinados é mais ou menos um musical, melhor, é um drama musical. Quando resolvem destacar a luta do cineasta do Selton para divulgar o filme, nenhum vestígio sequer de que seja musical existe. A censura caindo em cima, os militares ocupando as ruas, é a cena política daquela época sendo explorada de forma crua. E também a cultural quando mencionam a vitória do Brasil em Cannes com O Pagador de Promessas. Eu não sei se foi a direção de arte, a fotografia ou o figurino que não me convenceu de que a história se passa principalmente nos anos 60. Muita coisa ali parecia tão contemporânea. É bem diferente de O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, um viagem ao passado praticamente. O AdoroCinema classifica o filme como comédia romântica! Faz até um pouco de sentido, quando eu disse que muda de rumo, muda mesmo. O personagem do Santoro é casado com a Alessandra Negrini (sempre uma graça), ele a trai com a Cláudia Abreu que se envolve com o Ângelo depois e por aí vai. Também não entendi porque alguns foram deportados se em nenhum momento a hipótese de que eles foram ilegalmente é criada.

As canções são excelentes, só engrandecem a experiência. E o Santoro nem desafina! A Cláudia Abreu visivelmente não é a dona da voz de suas músicas. E visível também ficou o Selton dublando o ator que faz sua versão mais velha. Todo o quarteto masculino mais o Selton transmite realmente uma energia agradável e inspiradora que parece transceder a tela do cinema. Eu não falei??!! Descobri agora que o Ângelo, o André, o Jair e a Branca Lima que dá voz às canções da Cláudia resolveram seguir com o grupo e já estão até fazendo shows. Os Desafinados do filme nunca alcançaram o sucesso e é um pouco amargo vê-los na velhice, não por causa da idade, mas porque o grupo foi vítima de certas infelicidades que afetaram o seu destino. O número final é o mais forte de todos por justamente servir de referência a um passado cujas vitórias foram apagadas pelos infortúnios da vida.

Nota: *****

sábado, 6 de setembro de 2008

Vamos todos virar comida dos insetos gigantes

Chegou aqui O Neveiro que eu achei que não iria ver tão cedo principalmente por causa dos inúmeros adiamentos. Até eu tive que adiar minha ida duas vezes durante a semana. O que importa é que já assisti e foi um daqueles onde a expectativa era muito alta. O tombo existiu mas foi insignificante perante as suas qualidades. Esta é a terceira vez que o Frank Darabont dirige algo do Stephen King. As outras duas foram com Um Sonho De Liberdade e À Espera De Um Milagre. Adoro ambas. Pensando bem, gostei de todas as adaptações do King que já assisti, desde os terrores de O Iluminado e Carrie até o drama de Conta Comigo. Até Colheita Maldita de 1984 não achei ruim. O Nevoeiro é sobre um grupo de pessoas que ficam presas num supermercado depois que uma misteriosa névoa invade a região. O perigo que ela trás é o de menos quando o triunfo do filme está nos conflitos ideológicos dos personagens e nas suas duríssimas críticas ao exército americano e a uma certa parte daquela sociedade.

O problema inicial para mim foi o tempo levado para o filme ganhar forma e mostrar que não é apenas uma celebração do cinema trash. A partir do momento que a fanática religiosa da Marcia Gay Harden vai ganhando espaço, comecei a me envolver cada vez mais com o clima. E só fui conquistado de verdade pela cena final. Magnífica!!! Eu li que o Darabont mudou radicalmente o final do conto original do King que era bem ruinzinho. Quando eu penso que esperei duas horas para ficar grudado na poltrona quase sem respirar por causa da cena final, lembro que o filme decepciona um pouco no quesito suspense. Apesar de uns sustos isolados, não passei por nenhum momento alarmante. Se o terror revela desde o início como são os monstros e não deixa o público imaginar, não consigo ver o porquê de sentir medo. Eu já sei que em algum momento eles irão aparecer, atacar e matar. Mas como eu disse antes, as consequências do isolamento é o que mais importa. Diversos tipos ficam presos no supermercado e como cada um vai reagir à pressão da situação? A personagem da Marcia é a pedra preciosa daquele ambiente. Os seus discursos dizendo que o nevoeiro representa a ira de Deus por sermos pecadores, apoiadores das pesquisas em células-tronco e pró-aborto estão lá para satirizar os conservadores. Comparando o elenco em geral com o de Liberdade e Milagre, este está bem fraquinho. Embora eu ache que o elenco de Milagre tenha sido fundamental para o seu desempenho, ele não importaria tanto para O Nevoeiro desde que a religiosa não decepcionasse e a Marcia está inspiradíssima. Enfim, terror com conteúdo e referências a eventos importantes definem O Nevoeiro.

Nota: ****

terça-feira, 26 de agosto de 2008

E todos não viveram felizes para sempre

A sinopse espanta. A direção é de Breno Silveira de 2 Filhos de Francisco e você lembra que odeia música sertaneja. Então por que assistir esta maldição? Ou o que esperar de Era Uma Vez...? Que tal um filme com os assuntos mais ultrapassados possíveis e que rende ótimos momentos? É assim o resultado. Só para constar, eu gostei bastante de 2 Filhos e fiquei comovido que nem um condenado. Infelizmente este sofrimento não se repetiu desta vez e uma das propostas do diretor era criar um tearjerker como a história dos sertanejos. Eu não vi ninguém saindo chorando da sessão. Só foi uma pequena frustação minha.

Era Uma Vez... é filmão para público e digo isto no bom sentido mesmo. Tudo bem que o número de pessoas que já assistiram até agora não é animador. Rapaz de favela carioca se interessa por garota rica e vice-versa. Percebam o clima de romance socialmente inaceitável. Não para o público do cinema que torce por eles, é óbvio. A favela tem seus moradores decentes, a polícia é racista, os traficantes comandam os morros, a classe média é preconceituosa, está tudo lá como pano de fundo para interferir na história de amor. Uma das razões para o filme é funcionar é o carisma da jovem dupla de protagonistas Thiago Martins (Dé) e Vitória Frate (Nina). Ele está bem melhor do que ela até porque o filme é sobre ele. Há mais espaço para o rapaz diversificar sua atuação já que está mais em evidência. O terceiro personagem mais importante é o irmão do Dé feito pelo Rocco Pitanga. É ele quem impulsiona a melhor sub-trama da história.

O roteiro é previsível em sua maior parte. É tão proposital que não tem como não resistir. Você conhece o inevitável mas o grau de envolvimento chega a um nível em que você torce com todas as suas forças para estar enganado. E quando a tragédia acontece, a última gota de esperança que ainda restava vai embora. A sensação é desagradável, um sentimento de inaceitação cresce de tal forma que só piora quando o ator Thiago Martins narra sua breve história real durante os créditos finais.

No entanto, a relação deles tem seus momentos verdadeiramente ternos sem cair nas armadilhas dos romances colegiais feitos para as pré-adolescentes. Talvez por criar um pano de fundo mais injusto e não menos verdadeiro, o romance convence bem pois satisfaz o desejo do público de elevar o seu espírito. O destaque de cena mais hilária vai para o pai de Nina (Paulo César Grande) e o porteiro fofoqueiro do prédio. É até estranho lembrar este tipo de momento quando já se conhece o final do filme. Fica mais doloroso.

Nota: ****

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Noites de mirtilo

Eu vinha esperando por My Blueberry Nights desde que o filme estreou em Cannes em 2007 o que dá uns quinze meses atrás. Um Beijo Roubado é o seu título nacional. Foi até uma boa saída porque traduzi-lo ao pé da letra ficaria estranho. Blueberry foi a estréia do diretor chinês Wong Kar-Wai em língua inglesa. Eu só lembrava que o Jude Law e a Norah Jones (ótima para uma cantora que nunca foi atriz) estavam no elenco, aí durante os créditos inicias aparece o nome da Natalie Portman também e achei que iria ver um novo Closer já que os filmes do Kar-Wai que conheço são todos romances. Blueberry não alcança o nível de Amor à Flor da Pele, por exemplo, mas não deixa de ser apaixonante mesmo não sendo explicitamente uma história de amor. É mais um ensaio sobre relacionamentos impossíveis e decepções amorosas. O seus pontos fortes são os diálogos e a direção do Kar-Wai que preserva a sua marca.

Norah Jones é uma moça que começa a visitar o mesmo bar todas as noites após descobrir que o local era onde o seu namorado a traía com outra mulher. Ela e o dono do bar (Jude Law) passam as noites fazendo companhia um ao outro e refletindo sobre suas vidas amorosas. Norah decide seguir em frente mudando de cidade e o filme se torna um road movie em que ela irá conhecer pessoas que transformarão significativamente aquele momento de sua vida. É onde entram David Strathairn (Boa Noite e Boa Sorte), Rachel Weisz (!!!) e a Natalie Portman. Irei omitir a ligação entre eles.

Blueberry é muito lento, tem que saber apreciar o seu ritmo. Cada situação tem seu valor, mesmo que pareça estar se repetindo. Há paisagens que eu acho fascinantes em filmes, uma delas é o ambiente urbano durante a madrugada quando não existem mais pessoas nas ruas e as luzes dos postes acesas iluminando o asfalto para ninguém. Tem uma cena em que a Norah e a Rachel conversam num ambiente exatamente assim, sem falar que o momento é bem delicado. A gente fica esperando que a Norah revele algo mas, como é um filme do Wong Kar-Wai, a cena é direcionado de outra forma e ela não fala nada. Eu gostei da melancolia refletida pelos personagens e suas ações surpreendentes nos finais de suas histórias. Eu achei bem interessante como o Kar-Wai põe uma espécie de barreira entre a câmera e os personagens. Ao filmar o Jude Law conversando com sua ex-namorada, a câmera está dentro do bar, os atores fora e o vidro com letreiros no meio. É uma característica mantida em várias cenas. Talvez seja para transmitir mais intensamente para o espectador a idéia de que ele seja um mero observador do filme. E imagino também que seja uma representação para os obstáculos que os personagens têm que vencer porque todos ali estão buscando por algo mas antes uma barreira precisa ser ultrapassada.

Tenho visto mais filmes do que minha disposição para escrever permite. Talvez eu escreva sobre Hancock que acabei vendo logo depois de Batman. A coisa é tão ruim que ainda não esqueci. Também vi Persépolis e fiquei babando.

Nota: ****

sábado, 26 de julho de 2008

Todo herói tem sua crise existencial

Um colega me perguntou se eu iria assistir Hancock e respondi que não porque só aguento o Will Smith uma vez por ano. E a cota dele se esgotou lá em janeiro com Eu Sou A Lenda. Já o Christian Bale é outra história e ele faz parte da minha lista de atores e atrizes que me fazem ver um filme só por causa da sua presença. Naturalmente esta não foi a única razão para ter assistido o novo Batman, inclusive foi a menor delas. Hancock foi feito para reinventar o gênero mas os primeiros roteiros possuiam cenas tão apelativas que até foram cortadas depois. Mesmo assim, eu ainda posso viver sem a história do herói bêbado. O Cavaleiro das Trevas mostrou que não é necessário seguir um rumo diferente para fazer um filme excelente de super-herói. Eu achei ótimo de verdade mas não é a obra-prima que achei que fosse.

O diretor Christopher Nolan ressucitou o herói em Batman Begins de forma brilhante após as duas palhaçadas feitas pelo Joel Schumacher. Só estou repetindo o que dizem por aí sobre as versões do Joel já que não assisti nenhuma. O que mais gosto no Begins é ironicamente o início, tudo o que leva o Bruce a se tornar o homem-morcego, deve ser os 60% iniciais do filme. O resto é só o Batman combatendo o crime daquela trama. Pois o estilo apresentado neste resto de Begins foi intensificado e amadurecido para ser tornar a sequência. Foi como se aqueles 60% não estivessem presentes no Cavaleiro. Eu achei que poderia analisar o novo Batman como um filme que transcende o gênero dos super-heróis mas me enganei. O Cavaleiro das Trevas não deixa de ser um filme de super-herói. O seu diferencial é por não ser apenas uma exibição de efeitos especiais, não subestimar a inteligência do espectador e ter o Coringa, o melhor vilão que deve existir - pelo menos para mim que não conheço nada de quadrinhos.

Gotham City está tomada pelos mafiosos que são combatidos não somente pelo verdadeiro Batman mas também por uma legião de seguidores do Morcego que se fantasiam como o seu ídolo. O Coringa, um ladrão de bancos a princípio, faz uma parceria com os mafiosos para juntos matarem o Batman. Só que o Coringa joga sozinho, ele é uma espécie de personificação do caos. Enquanto o Homem-Aranha só questionou sua existência no terceiro filme (ou foi no segundo que ele já se cansou?), o Batman do Nolan passa pela mesma situação de crise existencial no segundo. Ele se sente responsável pelas mortes de inocentes e abandona o uniforme. Mas por pouco tempo, é óbvio. Gotham também tem um novo promotor público e os fiéis companheiros do Batman continuam na sequência. Acho que não existe um filme deste gênero com um elenco tão ótimo como os dois Batman do Nolan. Morgan Freeman e Michael Caine repetem seus papéis e adoro a importância deles para a vida do Bruce Wayne. O policial do Gary Oldman também. Katie Holmes não pôde participar deste (felizmente), Maggie Gyllenhaal assume o seu lugar de Rachel, a paixão de infância do Bruce. Dentre todos os personagens, Rachel é a menos explorada e parece um pouco perdida dentro da história. O Aaron Eckhart é o novo promotor e gostei da visão que tiveram para não deixá-lo para o próximo filme. Tem que assistir para entender o porquê.

Heath Ledger é o que há de melhor! É extraordinário pensar que o sucesso financeiro do filme foi por causa dele. A recepção da crítica teria sido a mesma se o ator ainda estivesse vivo mas a euforia do público não. Na fila quilométrica que enfrentei, as pessoas só falavam do ator que já morreu. Ele era a maior razão para eu ver este filme (não por causa da morte) e depois por ser a terceira parceria entre o Christopher Nolan e Christian Bale. Eu lembro que a primeira vez que vi o trailer de Cavaleiro foi num cinema e aquela imagem da cabeça do Heath maquiada em close me deu um aperto no coração de susto. Foi aí que começou a minha expectativa. Este Coringa é uma mistura de loucura e sanidade incrível. Em certos momentos a maquiagem está tão pesada que ele consegue atuar só com o olhar. A voz e a postura não lembram nada o ator. Este tipo de vilão é tão mais interessante do que os outros concorrentes. Também gostei do Lex Luthor do Kevin Spacey. A cena do Coringa saindo do hospital já é antológica. Outra decisão sábia foi não ter explicado a origem dele. Acho que tiraria o espaço das ótimas cenas presentes.

O título original do filme é apenas O Cavaleiro das Trevas, não contém a palavra "Batman" como no título nacional. É como se o público brasileiro precisasse de ajuda para saber que se trata de um filme do Batman. E também não entendi porque deixaram o título do anterior sem tradução quando poderiam ter colocado Batman - O Início.

O filme é muito bem executado, a direção do Christopher é segura mas tem uma cena do Batman, sua moto e uma parede que provocou risos pelo motivo errado. Não chega a ser constrangedora mas é engraçada. Aliás, filme de herói rico parece ser mais divertido. Não acho que o Peter Parker seja mais humano do que o Bruce Wayne só porque tem que trabalhar.

Nota: *****

sábado, 12 de julho de 2008

Fim do Shayamalan?

Fui contra a maré e aprovei o mais recente Shayamalan. A sacada é encará-lo como uma divertida sátira aos filmes de catástrofe que tentam analisar profundamente seus personagens mas sem êxito. As atuações em Fim dos Tempos são medíocres, os dialógos toscos e alguns acontecimentos absurdos. Não acredito como muita gente levou isto a sério e odiou o filme. Apesar de tudo, o Shayamalan não faria algo tão ruim sem deixá-lo aberto a outras interpretações. Não vou opinar sobre A Dama na Água porque não vi. É como assistir A Vila e querer que ele seja um terror, não vai funcionar. Esperar que Fim dos Tempos tenha um final surpreendente é a mesma coisa. O barato é se divertir com as caras ridículas do Mark Wahlberg. Por favor, ele é um excelente ator. Nem o pior diretor do mundo seria capaz de dirigi-lo tão mal. O que gosto no M. Night, além de ser um diretor autoral, é que depois de O Sexto Sentido, todos os seus filmes foram encarados como um evento independente de você gostar dele ou não. Quem não gosta vai lá ver só para falar mal. Ele consegue ser assunto. O roteiro foi escrito durante o auge do documentário do Al Gore logo este é o mais ecológico e fica fácil de adivinhar quem é o vilão da história. As pessoas de uma cidade começam a agir de forma estranha até que cometem suicídio. Suspeita-se que um ataque químico esteja acontecendo. É hora de abandonar a cidade! O Mark Wahlberg é um professor que foge com a esposa e um amigo também professor com sua filha. O casamento não vai nada bem. Já percebeu que vai rolar discussões sobre o relacionamento nos momentos mais inapropriados. Adorei uma parte em que eles encontram do nada um rádio pendurado numa cerca de uma fazenda durante a fulga e usam para saber das notícias sobre o ataque. Totalmente sem noção. O elenco de apoio de civis também em fulga é um show a parte. Nem dá para decidir quem faz a melhor expressão de medo. Há um diálogo impagável do Mark com a esposa em que ele começa a contar sobre uma moça que deu bola para ele, história para fazer ciúmes. O texto é tão ridículo e inacreditável que só me resta pensar que tudo no filme é ruim intencionalmente. E nem é preciso dizer que eles irão redescobrir o amor no momento de maior perigo. Não é o que acontece sempre? O suspense característico do Shayamalan está lá mas desta vez parece que ele está parodiando a si próprio o que se encaixa naturalmente. Uma coisa é certa, assim como A Vila, Fim dos Tempos não é vendido da forma que ele deve ser visto.

Nota: ****

terça-feira, 8 de julho de 2008

Cuidado com o que você come

Estômago é a estréia em longas de ficção do diretor Marcos Jorge e o rapaz já veio chamando a atenção já que o filme foi o grande vencedor do Festival do Rio de 2007. Pude assisti-lo há uma semana atrás quase sem querer numa sessão tripla com Chega de Saudade e Shine A Light. Mal sabia o que estava perdendo. Estômago deve ser a maior surpresa do cinema nacional. Não é nenhuma obra-prima mas já começa valendo por fugir dos temas abordados constantemente. Ele não se passa em favela, não tem casais da classe média carioca discutindo o casamento e não faz humor de apelo sexual ambientado no interior nordestino.

Um rapaz do interior abandona sua terra para tentar a vida na cidade grande. Logo ele descobre seu talento para a culinária, se apaixona por uma prostituta e acaba na prisão. Achei Estômago bastante original. Seu começo é um longo monólogo sobre o queijo gorgonzola. Hã? E as muitas situações bem humoradas envolvendo comida? Todas funcionam (ou quase todas). São principalmente estas situações que carregam o filme. E ele é dividido em duas linhas narrativas que são contadas paralelamente. Sua chegada à cidade grande e à prisão são mostradas mais ou menos ao mesmo tempo. Enquanto vemos sua vida atrás das grades, a outra sequência vai narrando os fatos que o levaram a ser preso. Mas ambas são unidas por pontos comuns descritos pelas transformações sofridas pelo protagonista de um ser vulnerável em um novo ambiente para alguém capaz de realizar uma ação que ninguém esperava que ele fosse capaz. Seu nome é Raimundo Nonato, interpretado pelo ator João Miguel que eu ainda não conhecia mas já tem uma ótima filmografia. Talvez por eu não conhecê-lo, achei algumas de suas cenas tão naturais que pensei que ele não estivesse atuando. Fazia umas expressões faciais que pareciam deixá-lo envergonhado. Engano meu. Foi tudo intencional e estava fazendo o personagem. Sem falar que o João Miguel já foi bastante premiado.

Estômago diverte mesmo, além de ousar e esbanjar criatividade. Há uma cena em que a iluminação é tão artística. A atriz que faz a prostituta entra nua numa cozinha sem iluminação, se dirige à geladeira e abre sua porta o que faz com que a luz do aparelho revele o seu corpo. O relacionamento dela com o Raimundo é uma mistura de sinceridade com amargura. Você torce por eles mas o destino dos dois é incerto. E para não fugir da proposta do filme, eles começam o relacionamento porque ela se encanta com a coxinha dele. E o macarrão nem se fala.

Nota: *****

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Onde está Wall-E?

O que resulta recesso escolar mais animação da Pixar – dublada? Uma fila gigantesca formada por famílias inteiras e muita gente sem poder entrar porque a lotação máxima foi atingida. Fui um dos últimos a conseguir entrar na minha sessão e, é lógico, peguei um dos piores lugares. O melhor de tudo é que Wall-E compensou todo o sacrifício. É sério, já estou achando que é a minha animação preferida do estúdio batendo até Procurando Nemo que eu adoro. Gostei muito de Ratatouille no ano passado e ainda preciso rever porque eu estava com a cabeça longe naquele dia. Wall-E não é tão divertido quanto Nemo mas possui elementos que o torna mais marcante e por que não um dos melhores filmes do ano? E este é infinitamente superior ao Robôs da Fox de 2005.

Desta a vez a Pixar avança 700 anos e cria uma realidade em que a humanidade não vive mais na Terra e os robôs são os únicos trabalhadores. O nível de poluição e lixo atinge um nível tão absurdo que é impossível morar no planeta. A população restante vai viver numa nave gigante – de fazer inveja àquela do clássico do Kubrick e naturalmente Also Sprach Zarathustra é tocada em algum momento – que vagará pelo espaço enquanto robôs são deixados na Terra para fazer a limpeza. Nem eles dão conta do trabalho e Wall-E é o único robô “sobrevivente”, tão solitário. Vive colecionando objetos abandonados pelos humanos. Will Smith em Eu Sou A Lenda não está com nada. Enquanto este tinha um cão como companheiro, o robô tinha uma barata. Perfeito, não? Certo dia, um outro robô chamado de Eva é deixado no planeta por uma espécie de nave que, por enquanto, a gente não sabe o que é. Wall-E se apaixonará por ela. Um detalhe é que Eva foi desenhada pelo maior designer da Apple, grande parceira da Pixar. Não é gratuita a aparição de um iPod no filme. Eu gostei de como os sentimentos dados aos robôs não ficaram forçados principalmente por eles se distanciarem da forma física humana. É como criarmos uma relação afetiva com um quadrado. É claro que o quadrado possui algo com função de olhos, por exemplo, mas não passa disto. Está mais relacionado ao seu comportamento. Eu me diverti muito com o robozinho da limpeza.

A gente percebe a grandeza do filme quando os humanos entram em cena. Imagine gerações e gerações que só nascem para comer e dormir. É uma ótima sátira ao avanço tecnológico e ao comodismo exagerado. Infelizmente são duas coisas diretamente proporcionais e querer separá-las não parece estar nos nossos planos.

Eu sou bem pessimista em relação à preservação do meio-ambiente. Eu imagino um futuro cheio de calamidades onde as condições de vida vão se tornando cada vez mais escassas. Mas será que é mais fácil criar um novo ambiente fora da Terra do que reverter o mal já existente? O filme impulsiona estas discussões. Quantas verdades inconvenientes são necessárias para salvar o planeta? Espero mesmo que o público infantil que vá ver Wall-E tenha sua consciência ecológica despertada.

A direção dele ficou com o Andrew Stanton, o mesmo de Procurando Nemo e elogiar o trabalho dos animadores é chover no molhado.

Nota: *****